O Kindle é bom? Vale a pena?

O Romulo é um amigo que foi morar na Inglaterra e no carnaval veio passar umas férias no Brasil. Na oportunidade de ter um amigo vindo do exterior pedi que me trouxesse uma encomenda, um Kindle da Amazon, que saiu por £89.

Quando abri a caixinha bacana, lá estava o Kindle preparado para me engolir em seu mundo mágico. Liguei, fiz as configurações imediatas e logo de cara me apaixonei pelo jeito como ele funciona. A tela é de tinta que se organiza eletronicamente conforme mudam as imagens e textos, mesmo princípio da tela daqueles minigames de tetris, sabe? No começo parece meio tosco para um eletrônico do século vinte e um, mas em poucos minutos aquelas piscadelas entre uma página e outra se transformam em um charme exclusivo do Kindle.

Kindle Store

O Kindle conecta na internet sem-fio e dá acesso à loja da Amazon. Livros, revistas, jornais. A variedade de conteúdo é grande. Maior parte desse conteúdo é em inglês, existem livros em Português, e também 8 jornais e algumas revista.

Os preços são bem mais baratos que livros de papel, em média um livro de 200-300 páginas custa $9.99 (~R$17). Nas livrarias brasileiras esse tipo de livro está em média 35 reais. Você compra no computador ou através do próprio aparelho. Quando o Kindle está conectado na internet, ele faz o download dos conteúdos comprados.

As revistas podem ser compradas em exemplar solto ou assinatura (com jornal é assim também). Eu assinei uma revista, a Asimov’s Science Fiction, por $2.99 ao mês.

Títulos em português e poluição

São 3960 títulos em português na Kindle eBook Store. 620 desses foram adicionados nos últimos 90 dias. Alguns são apenas contos e não livros completos, e não espere encontrar best-sellers como numa prateleira de livraria. A expectativa é que isso melhore com o tempo, mais para frente nesse artigo comento sobre o assunto novamente. O importante para quem compra o Kindle hoje é ter noção que a vasta maioria dos livros disponíveis são em inglês.

O objeto Kindle

Super leve, fino, gostoso de olhar e segurar. Mas não muito resistente a arranhões e riscos. Usado menos de um mês, o meu já apresenta diversas marcas (metade aconteceu por culpa do meu cachorro que tentou tirar o aparelho da caixa :( ). Mas todas elas na parte do case, nenhuma na tela, que parece ser mais resistente.

Manusear ele durante a leitura não causa desconforto, como é leve dá para segurar com apenas dois dedos e pouco esforço (e nem precisa ser o polegar opositor, ou seja, até macacos conseguem segurar confortavelmente um Kindle).

A tela de e-Ink

A tecnologia da tela do Kindle é o que faz a maior diferença. A tal da e-Ink é como a tela preto-e-branco dos antigos minigames de tetris. Muitos chamam de papel eletrônico (acho exagero esse termo).

Por não ter backlight (luz de fundo na tela) traz vantagens: não cansa o olho e não reflete na luz; e uma desvantagem: não dá para ler no escuro!

Para resolver a desvantagem existe um clip com uma lanterninha, que vem com algumas das capas vendidas para o aparelho. Mas não posso dar opinião sobre isso porque não comprei. Na loja da Amazon as capas chegam a custar quase metade do preço do aparelho, caro demais.

Como comprar? Vai ter no Brasil?

Atualmente só é possível comprar o Kindle fora do Brasil. Fazendo um pedido através da loja da Amazon por $109 e pagar o maldito imposto de importação brasileiro de 60%. Um advogado brasileiro conseguiu na justiça uma liminar para comprar o aparelho sem ter que pagar o imposto, mas né, caminhos tortuosos da justiça do nosso país.

Reza a lenda dos boatos de tecnologia que um executivo está sendo treinado na Amazon a fim de embrenhar o mercado editorial brasileiro. Sua missão seria convencer as editoras verdeamarelo a colocar suas edições na loja da Amazon. Junto com esse boato veio outro: o Kindle estaria para ser lançado no Brasil em julho a um preço próximo de R$200. Mas já sabemos que brasileiro está disposto a dar lucro para grandes empresas, então na minha opinião o Kindle chega no Brasil por não menos que R$399.

Vale a pena esperar? Não sei. Eu tive uma oportunidade e resolvi embarcar. Agora estou apaixonado pelo Kindle. Se tivesse visto antes em mãos, teria dado um jeito de trazer lá de fora, mesmo que tivesse que arcar com a Terrível Barreira de 60% da Receita Federal™.

Quem coloca as mãos nele se apaixona

Minha namorada é um tanto avessa à tecnologia (pelo menos se faz de, na realidade ela não é). Ela chama de nerd todo mundo que gosta de computador, mas não vive sem suas séries favoritas que ela baixa pela máquina de escrever conectada à internet. Na primeira vez que ela pegou o Kindle, olhou desconfiada, me chamou de nerd mais uma vez para certificar sua posição anti-nerd-stuff, esperou uns momentos e disse:

- Compra um livro pra mim!

Significava uma coisa, a alma dela agora pertencia ao mundo mágico do Kindle. Nas próximas duas madrugadas ela devorou dois livros. Livros ruins*, segundo ela, mas o Kindle ganhou a aprovação, e agora ela quer um para ela.

* Os referidos livros ruins que ela não indica para ninguém são “72 Horas para Morrer” e “Trama Mortal”.

E quem tem iPad, pode gostar do Kindle?

Duas diferenças são impactantes: a luz de fundo e as possibilidades de distração. Quando você pega o Kindle e senta para ler, mergulha no texto. Não existem distrações nele, não vai pipocar uma mensagem de twitter na frente do seu livro, não vai ter sms, nada. O Kindle é um livro. Já o iPad é, é um iPhone Gigante. E o iPhone gigante tem luz de fundo, que depois de algum tempo causa dor de cabeça, cansaço e até problemas nos olhos mais suscetíveis a estresse. Para textos menores o iPad pode até dar conta do serviço, mas quando você acha aquele livro que te faz virar a madrugada lendo, pode dar dor de cabeça! Já no Kindle dificilmente terá problema similar.

Kindle, Kindle Touch, Kindle Touch 3G e Kindle Fire

Esqueça tudo o que eu escrevi sobre o Kindle se você está considerando comprar um Kindle Fire. Esse Kindle mais robusto é concorrente do iPad e tem figurinhas coloridas, filminhos e distrações iguais ao do iPhone gigante.

Já os outros três tem diferenças simples: o touch 3G tem acesso a rede 3G (duh!), o touch é touch screen (duh!) e o mais simples tem alguns botões de navegação. Todos com tela e-ink. O meu é o mais simples, e quando estou em algum lugar sem internet wireless, peço ajuda do 3G do iPhone que faz uma ponte para eu baixar meus livros tranquilamente.

Um ponto fraco do Kindle mais simples é quando você precisa usar o teclado. É necessário ir letra por letra usando o comando de cinco direções. Creio que no Kindle Touch esse problema não existe.

Para uma comparação completa, veja a página de venda do Kindle.

Seus livros são acessíveis de qualquer dispositivo

As vezes você não está com o Kindle em mãos mas está afim de ler. Eis que você pode ler no celular! Também é possível ler no computador (direto no navegador ou via software).

O bacana é que ao abrir o livro em outro dispositivo ele pergunta se você quer ir para a página onde você parou na sua última leitura. Um exemplo do dia a dia torna simples o entendimento: minha namorada tomou o Kindle enquanto eu trabalhava, acabei o que estava fazendo e queria ler um pouco, abri o livro no notebook e continuei a leitura na página em que havia deixado no Kindle, quando voltei pro aparelho, ele fez a sincronia para a página em que eu havia parado no notebook! É simples, mas faz uma diferença tremenda!

Redes Sociais, sempre elas

A Amazon não iria deixar de se meter nas redes sociais com o Kindle. É possível compartilhar trechos dos livros que você está lendo diretamente no Twitter e/ou Facebook com apenas um clique, tão simples e rápido que quase não atrapalha a leitura. Eles também fizeram uma espécie de rede social no próprio site da Amazon: você pode seguir as pessoas e ver o que elas estão lendo, e o histórico de compartilhamentos delas e os seus.

Veja meu perfil!

Outra funcionalidade é o destaque para marcações populares. Você está lendo o livro quando de repente um trecho interessante mostra-se sublinhado com o aviso “38 pessoas marcaram isso”.

Livros grátis para o Kindle

Na loja de Kindle eBooks da Amazon você pode encontrar dezenas de livros de domínio público gratuitos. São os clássicos como Eça de Queiroz e Machado de Assis. Dias atrás li “Lendas do Sul”, de João Simões Lopes Neto. Livro ótimo, gratuito na loja.

Não tenho Kindle mas gostaria de ler os livros gratuitos

Basta entrar na Amazon Kindle eBooks, clicar em comprar em um dos livros gratuitos, fazer um cadastro que leva menos de um minuto e ler no próprio navegador ou nos softwares que a Amazon disponibiliza!

Posso ler PDFs, arquivos de Word e outros? Como adiciono arquivos no Kindle?

É possível ler PDF no Kindle, mas não recomendo. Quando o Kindle abre um PDF ele não reconhece o texto a ponto de organiza-lo na coluna de leitura, aí tem que fazer aquele esforço para ler um pouco e clicar para o lado (ou mudar a orientação para horizontal e tentar enxergar o texto pequeno), não vale a pena. Já outros arquivos como os do Word, ele lê normalmente, como se fosse um Kindle eBook. Uma saída possível para esse problema é usar um conversor de PDF, como o Calibre (freeware).

Para transferir arquivos para seu Kindle basta plugar ele via USB no computador (e também é assim que se carrega o aparelho). Outra forma de enviar arquivos para ele é através do email que a amazon disponibiliza. Exemplo: [email protected]; você manda o arquivo nesse email e ele automagicamente aparece no seu Kindle.

Então vale a pena?

Com quase um mês de uso digo que vale. Já li cerca de 6 livros no período em que estou com ele. O Kindle recuperou meu gosto pela leitura que havia se perdido em meio ao cansaço que me dá a leitura no papel (sério, eu durmo em 5 min). Só com o tempo irei saber se esse gosto pelo Kindle vai continuar ou não. Até lá, quando me perguntarem se ele é bom, terei a resposta na ponta da língua.