Pequenos Problemas

Este é um continho que escrevi depois de ler meia dúzia de livros em alguns dias – culpa de ter comprado um Kindle, fico devendo uma resenha sobre o objeto.

Sempre gostei de ler, e por consequência, de escrever. Mas nos últimos anos o interesse pelos livros diminuiu drasticamente, e por consequência, o interesse pela escrita. Sempre achei que a escrita é uma das únicas coisas que consigo desenvolver muito relativamente bem, por isso vou tentar voltar com tal costume que tanto me traz PRAZER.

Esse é um conto sobre problemas cotidianos. Como não consegui encontrar uma solução racional para resolver os probleminhas, decidi usar o escape a lá “Além da Imaginação” (coincidentemente há um episódio em particular que os fãs iram retomar na memória, ou nas mãos, não tive a intenção, porém). A solução que desejava mais não veio porque queria terminar isso dentro da janela de um dia, se não o fizesse, entrava no ciclo da procrastinação e daí, não terminaria nunca.

Leia e divirta-se!

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Pequenos Problemas

Sabe como é, não tenho grandes problemas porque eu cuido da minha vida. Se a maioria das pessoas fizesse como eu, essa história nem precisaria ser contada. É bem verdade que tenho um pouco de sorte quanto a boa saúde que carrego, mas é inegável que ela também é fruto de uma alimentação equilibrada, ausência de noitadas regadas a álcool e drogas e exercícios físicos regulares. Responsabilidade, alguns chamam assim. Quanto a vida profissional também tive “sorte”. Talvez tenha sido porque estudei e desenvolvi ótimas competências no tempo em que muitos adolescentes tapam os ouvidos para os conselhos dos mais velhos. Como expliquei, não tenho grandes problemas.

Além de cuidar da minha vida faço o possível para não incomodar as pessoas em suas vidas, é uma questão de respeito. Desde muito pequeno fui aconselhado a não ser intrometido nas coisas alheias, a não causar problemas para os outros e a respeitar os outros. Pois, como sabem agora, também não sou a causa de pequenos problemas.

Mas tenho pequenos problemas, problemas que são causados pelos outros e infligem um sofrimento que tende ao infinito, e eles são o motivo da minha história. Resolvi dar um jeito nesses pequenos problemas.

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Segunda-feira – 17 de Janeiro

Acordei cedo, peguei a lista de materiais e fui até a loja. Já tinha feito o plano, tinha o blueprint da coisa toda. Iria tratar de resolver um pequeno problema de alguém que se arrasta por meses numa perturbação absurda. O caso aqui é de um cara que não conheço, um cara que tem um carro, carro que tem um sistema completo de som, sistema de som que toca músicas dos mais variados estilos – principalmente do estilo porcaria – e que chega, estaciona na casa de um vizinho, e fica por duas horas em média fazendo o bairro todo ouvir as músicas que lhe são do gosto.

Na primeira loja gastei um bom dinheiro com transformador elétrico, fios e bobinas. Na segunda comprei pavio e explosivos de festa. Na terceira comprei cerveja.

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Quarta-feira – 19 de janeiro

Jamais pensei em machucar qualquer pessoa, mas nunca iria me negar o direito de defesa, e é isso que eu faço quando atacam os meus sentimentos, apenas me defendo. Essa semana tive que agir assim. Estava no açougue próximo de casa, um lugar antigo, mas nunca tranquilo. Como o preço é justo e a qualidade é a melhor dessa cidade, sempre está lotado. Aguardava minha vez de fazer o pedido no balcão. Quando chegou o momento, apareceu um cara, conhecido do funcionário que iria me atender, e começaram de papo. Este funcionário do açougue pediu um momentinho, e antes que eu pudesse responder se ateve na conversa com o amigo dele.

São estes meus pequenos problemas, são dos outros, semanticamente falando, mas me afetam e por isso acabo tomando as dores. Doeu no meu sentimento ser largado e deixado de lado pelo funcionário do açougue. Ele que deveria se ater a sua função, melhorar suas habilidades, juntar um dinheiro, quem sabe conseguir um sócio e abrir seu próprio açougue. Aquele simples roteiro de quem quer melhorar na vida: abdicar do prazer presente para aproveitar um futuro melhor. Não conhecem esse roteiro aqueles dois amigos que colocaram o papo frívolo frente à responsabilidade.

Não é a amizade dos dois que me irrita, não é a questão de esperar para ser atendido, mas ser ignorado porque os dois queriam conversar sobre a rodada do campeonato. Isso é um pequeno problema que afeta meu dia a dia, meu humor, e minha existência. Afeta meus sentimentos. Não busco estes pequenos problemas mas eles insistem em entrar em rota de colisão comigo. Hoje, porém, estou de pronto com armas à mão.

  • Com licença. Vai me atender?
  • Um momento.
  • Já passou.
  • O que, senhor?
  • Seu momento, já passou.

Olhou torto e se pôs a seguir o script perguntando o que eu queria.

  • Quero mignom cortado em tiras para fazer strogonoff.
  • Não tem.

Saí do balcão e me coloquei a pagar as outras coisas que tinha escolhido. Comentei com o balconista:

  • Não tem mignom hoje, estão com faltas no fornecimento?
  • Tem sim senhor, sempre temos. Chegou hoje de manhã, fresquinho! Jurandir, ainda tem mignom né?

Jurandir era um outro funcionário do açougue. Que respondeu positivamente à questão do balconista. Foi a minha senha para atacar. Transformei-me em um monstro, literalmente. Os braços estenderam-se, os dedos fizeram-se garras compridas e mais afiadas que as facas daquele açougue, minhas pernas se fizeram de canguru e pulei para cima do funcionário que havia me negado mignom cortado em tiras. A fúria sem limites conduziu o ato: peguei pelo pescoço, com cuidado para não matar, me esforçando para não matar, pois meus dedos eram afiados como aquelas espadas japonesas que cortam cem bambus emparelhados. Botei a cabeça dele alinhada na serra-fita e liguei:

– Então se não tem mignom, vou querer um pedaço de carne de burro!

Passei a fita – a cabeça, na verdade. Sangue jorrou. Levei meio quilo de cérebro de burro. Deixei o resto para fazerem carne moída.

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Sexta-feira – 21 de janeiro

Estava com as compras da segunda-feira todas preparadas. Próximo do anoitecer iria surgir aquele carro rebaixado perturbando até os pássaros que pela força dos graves viam-se desesperados para manter os ninhos sobre os galhos. Não falhou em chegar vagarosamente, estacionar em frente ao vizinho, e deixar o som ligado. Era minha deixa.

Carreguei num carrinho de mão meu artefato com bobinas de fio de cobre, era praticamente um transformador de energia. Coloquei ao lado da camionete, estiquei um fio que liguei ao poste. Bastava ativar. Ciente da movimentação próxima da sua amada camionete, o cidadão se aproximou e indagou gritando – porque nada poderia ser ouvido com a interferência daquele som monstruoso emitido pelo carro dele:

  • Tá fazendo o que?
  • Preparando algo para explodir o som do seu carro.
  • Hã? Fala mais alto, não ouvi…

Fiz sinal com a palma da mão aberta, significava que era para ele esperar. Então liguei minha pequena máquina montada errada, mas que provavelmente funcionaria, o que era suficiente. E foi assim, deu um curto-circuito brilhante! Explodiu! O som deu lugar a estouros seguidos. Que sinfonia tão mais agradável estava ouvindo agora.

Sentado numa cadeira de praia e observando o cidadão correr até o carro, já armei-me dos explosivos de festa. Então como esperado, ele começou a vir em minha direção, levou fogo. A cada passo que dava eu acendia e mirava os fogos nele. Ele estava dançando! Dançando a minha música!

Dei um gole orgulhoso na cerveja, ele aproximou-se com a ira de alguém que tinha perdido sua máquina de incomodar o mundo. Iria me atacar, mas fui mais rápido: toda aquela coisa de braços esticados e espadas japonesas afiadíssimas.

Mais um pequeno problema estava resolvido.

Por: Slonik RafaelEm: fevereiro 23, 2012 | Em Slonikontos  |
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